A Reforma Protestante: A Palavra que Voltou ao Povo de Deus

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Irmãos, daqui a poucos dias, no dia 31 de outubro, a Igreja evangélica ao redor do mundo lembra um acontecimento que mudou a história. Em 1517, há 509 anos, um monge alemão pregou algumas folhas na porta de uma igreja numa cidadezinha chamada Wittenberg. Ele não imaginava que aquele gesto, um convite a um debate acadêmico, iria sacudir a Europa inteira.

Mas eu quero começar com uma pergunta, e quero que vocês pensem antes de responder:

Para conversar: Se alguém perguntasse a vocês “por que existem evangélicos? Por que não continuamos todos na mesma igreja de antes?”, o que vocês responderiam?

(Ouvir duas ou três respostas.)

Muita gente pensa que a Reforma foi uma briga de família, uma questão de temperamento, ou a vontade de um homem de criar a sua própria igreja. Hoje eu quero mostrar que a história é outra. A Reforma foi uma questão de verdade. A pergunta central era: quem tem a palavra final sobre a fé do cristão, a Escritura ou a tradição da instituição? E: como o pecador é aceito diante de Deus, pela fé em Cristo ou pelas obras e pelos méritos?

Vamos percorrer isso em quatro passos: o que veio antes de Lutero, o que aconteceu em 1517, o que a Reforma ensinou, e como Roma respondeu. No fim, veremos o que isso tem a ver com a nossa vida hoje.


I. A REFORMA NÃO COMEÇOU COM LUTERO

1. O pano de fundo: uma Igreja distante da Bíblia

Durante séculos, a Bíblia ficou presa numa língua que o povo não entendia: o latim. O culto era em latim, a Bíblia era em latim, e o cristão comum dependia totalmente do clero para saber o que Deus havia dito. Isso é grave, porque a Escritura foi dada para ser lida e compreendida pelo povo de Deus (Deuteronômio 6:6-7; Atos 17:11).

Com o tempo, foram se acumulando ensinos e práticas sem base bíblica: a venda de indulgências, o culto às imagens, a ideia de que a salvação dependia do sistema religioso. Mas Deus, em todos os tempos, levanta testemunhas. Antes de Lutero, houve homens que ergueram a voz, muitas vezes pagando um preço altíssimo. Os historiadores os chamam de pré-reformadores. Vamos conhecer os principais, de forma breve.

2. Os principais pré-reformadores

Pedro Valdo (c. 1140–1205), França. Era um comerciante rico de Lyon. Converteu-se, abriu mão da riqueza e passou a pregar o evangelho ao povo, mandando traduzir trechos da Bíblia para a língua popular. Seus seguidores, os valdenses, foram perseguidos por séculos e preservaram a fé bíblica nos vales dos Alpes. Eles já diziam: a Bíblia precisa estar nas mãos do povo.

John Wycliffe (c. 1330–1384), Inglaterra. Professor em Oxford, conhecido como “a estrela da manhã da Reforma”. Ensinou que a autoridade final é a Escritura, não o papa. Liderou a tradução da Bíblia para o inglês, para que o lavrador pudesse lê-la. Seus seguidores, chamados lolardos, foram perseguidos. Tanto o odiaram que, décadas depois de sua morte, seus ossos foram desenterrados e queimados.

Jan Hus (c. 1370–1415), Boêmia (atual República Tcheca). Pastor e pregador em Praga, leitor de Wycliffe. Pregava que Cristo, e não o papa, é a cabeça da Igreja (Colossenses 1:18). Foi convocado ao Concílio de Constança com a promessa de salvo-conduto, mas foi preso, condenado e queimado vivo em 1415. Recusou-se a negar o que a Escritura ensinava.

Podemos mencionar ainda, de passagem, Girolamo Savonarola (Itália, queimado em 1498), que denunciou a corrupção da Igreja e de Roma.

3. Deus preparou o terreno

Repare como Deus foi preparando a história. Por volta de 1450, Gutenberg inventou a imprensa de tipos móveis, e o primeiro livro impresso foi a Bíblia. Em 1516, Erasmo de Roterdã publicou o Novo Testamento em grego, permitindo voltar ao texto original, em vez de depender só da tradução latina. Quando Lutero se levantou, a lenha já estava seca. Foi Deus quem governou tudo (Gálatas 4:4; Provérbios 21:1).

Para conversar: Wycliffe e Hus foram perseguidos por defender que o povo tivesse a Bíblia. Hoje temos Bíblia em casa, no celular, em várias traduções. O que a história deles diz sobre o valor que damos a ela?


II. 1517: A FAÍSCA DE WITTENBERG

1. Lutero e a descoberta do evangelho

Martinho Lutero (1483–1546) era monge agostiniano e professor de teologia. Era um homem atormentado: jejuava, confessava-se por horas, castigava o próprio corpo, e mesmo assim não tinha paz. Via em Deus apenas um juiz que o condenava. Como se achar justo diante de um Deus santo?

A resposta veio quando Lutero mergulhou na Escritura, especialmente em Romanos 1:17: “Nele [no evangelho] se revela a justiça de Deus, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá pela fé.” Lutero entendeu que a justiça de Deus não é só aquela com que Ele condena, mas aquela que Ele concede ao pecador que crê em Cristo (Romanos 3:21-24). Ele mesmo disse que sentiu como se tivesse entrado no paraíso pelas portas abertas.

2. As indulgências e as 95 Teses

Naquele tempo, o frade João Tetzel vendia indulgências na Alemanha, para financiar a construção da Basílica de São Pedro, em Roma. O ensino popular era: a pessoa depositava a moeda no cofre e a alma saía do purgatório. Prometia-se perdão e redução de pena mediante pagamento.

Lutero ficou indignado, como pastor. Estavam enganando o povo com falsa segurança! Em 31 de outubro de 1517, ele publicou as 95 Teses, convidando ao debate. O documento se espalhou pela Alemanha em poucas semanas, graças à imprensa.

3. O confronto

Roma exigiu que Lutero se retratasse. Em 1520, o papa emitiu uma bula condenando-o. Lutero queimou publicamente o documento. Em 1521, foi levado diante do imperador na Dieta de Worms, e lhe pediram que negasse seus escritos. Sua resposta ficou famosa: que só se retrataria se fosse convencido pela Escritura e pela razão clara, pois sua consciência estava presa à Palavra de Deus. Ele não podia nem queria retratar-se, porque agir contra a consciência não é seguro nem correto.

Depois, escondido no castelo de Wartburg, traduziu o Novo Testamento para o alemão (1522). Repare: o mesmo caminho dos pré-reformadores, a Bíblia na língua do povo.

Mas Lutero não foi o único. Na Suíça, Ulrico Zuínglio (a partir de 1519, em Zurique) e, mais tarde, João Calvino (autor das Institutas da Religião Cristã, 1536, e pastor em Genebra) levaram a Reforma adiante. Daí vem a tradição reformada, da qual somos herdeiros.

Para conversar: Lutero tinha tudo para ser um religioso exemplar e, ainda assim, não tinha paz. Alguém já tentou “merecer” o favor de Deus por esforço próprio? Como o evangelho nos liberta disso?


III. O QUE A REFORMA ENSINOU: OS CINCO “SOLAS”

A Reforma pode ser resumida em cinco frases em latim, chamadas os cinco solas (“sola” significa “somente”).

  1. Sola Scriptura, somente a Escritura. A Bíblia é a autoridade final e suficiente para a fé e a vida (2 Timóteo 3:16-17). Jesus repreendeu os que anulavam a Palavra de Deus por causa de suas tradições (Marcos 7:8-9, 13).
  2. Sola Gratia, somente a graça. A salvação é presente imerecido de Deus (Efésios 2:8-9). Não somos salvos por termos feito algo, mas porque Deus nos amou primeiro.
  3. Sola Fide, somente a fé. O pecador é declarado justo por meio da fé, sem as obras da lei (Romanos 3:28; Gálatas 2:16). As boas obras são fruto da salvação, não a sua causa (Tiago 2:17 e Efésios 2:10).
  4. Solus Christus, somente Cristo. Ele é o único mediador entre Deus e os homens (1 Timóteo 2:5) e o único caminho (João 14:6). Seu sacrifício na cruz foi suficiente e definitivo (Hebreus 10:12-14).
  5. Soli Deo Gloria, somente a Deus a glória. Tudo vem dele, por meio dele e para ele (Romanos 11:36).

Guardem isto: a Reforma não inventou doutrinas novas. Ela redescobriu as antigas. Não foi uma novidade, foi um retorno ao evangelho que os apóstolos pregaram.

Para conversar: Entre os cinco solas, qual deles vocês acham que mais está sob ataque hoje, dentro e fora das igrejas?


IV. A RESPOSTA DE ROMA: O CONCÍLIO DE TRENTO

1. Roma foi chamada ao arrependimento

Seria de esperar que a Igreja de Roma, diante de uma crítica baseada na Escritura, voltasse à Palavra. Foi isto que aconteceu? Infelizmente, não. A resposta oficial veio no Concílio de Trento (1545–1563), realizado em várias sessões ao longo de quase vinte anos. Em vez de corrigir o rumo, o Concílio reafirmou e fixou oficialmente os ensinos que os reformadores haviam criticado.

2. O que Trento decidiu

Vejamos os pontos principais, e confrontemos cada um com a Palavra:

a) Escritura e tradição no mesmo nível. Trento declarou que a revelação está contida nas Escrituras e nas tradições não escritas, devendo ambas ser recebidas com igual reverência. O que diz a Palavra? Jesus condenou os que, por suas tradições, invalidavam o mandamento de Deus (Marcos 7:13). A Escritura é suficiente para tornar o homem de Deus perfeito (2 Timóteo 3:16-17).

b) Condenação da justificação somente pela fé. Trento declarou anátema, isto é, maldição, sobre quem dissesse que o pecador é justificado somente pela fé. O Concílio ensinou que a justificação depende da fé mais as obras e a cooperação do homem, ligadas aos sacramentos da Igreja. O que diz a Palavra? “O homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Romanos 3:28). “Se é pela graça, já não é pelas obras” (Romanos 11:6). Perceba a gravidade: Roma amaldiçoou justamente aquilo que Paulo ensinou, e amaldiçoou o evangelho que Gálatas 1:8-9 manda guardar!

c) A missa como sacrifício. Trento reafirmou que, na missa, o sacrifício de Cristo é renovado e oferecido a Deus pelos vivos e mortos. O que diz a Palavra? “Cristo, tendo oferecido uma única vez um sacrifício pelos pecados, assentou-se para sempre à direita de Deus” (Hebreus 10:12). Se o sacrifício foi único e suficiente, não precisa ser repetido (Hebreus 9:25-28).

d) Purgatório, indulgências e intercessão dos santos. Trento reafirmou o purgatório, a validade das indulgências e a invocação dos santos e das imagens. O que diz a Palavra? “O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1 João 1:7). Só há um mediador (1 Timóteo 2:5), e o Senhor nos dá livre acesso ao trono da graça (Hebreus 4:14-16).

e) Sete sacramentos e o papel da Igreja. Os sacramentos foram definidos como meios necessários de graça, administrados pelo clero, o que coloca a Igreja como intermediária da salvação.

3. O ponto de fundo

Observe o que isso mostra. Roma, em Trento, teve a oportunidade de voltar à Escritura e escolheu proteger a tradição. E essas decisões nunca foram revogadas. Elas foram reafirmadas ao longo dos séculos e permanecem no ensino oficial da Igreja Católica. Mudaram o tom e o diálogo, mas o evangelho que Trento condenou continua o mesmo, e o que Trento afirmou ainda é afirmado.

4. Uma advertência pastoral

Irmãos, é importante dizer: criticar a doutrina não é odiar as pessoas. Há católicos sinceros, que amam a Deus e buscam a verdade, e que talvez nunca tenham ouvido o evangelho da graça com clareza. Nosso dever é falar “a verdade em amor” (Efésios 4:15) e orar por eles, sem arrogância, lembrando que também nós somos salvos só pela graça (1 Coríntios 4:7). A questão não é quem é melhor, mas o que a Escritura ensina.

Para conversar: Por que é tão fácil confiar em “fazer a nossa parte” para sermos aceitos por Deus? Como falar do evangelho da graça a um amigo católico sem entrar numa briga?


V. IMPLICAÇÕES PARA HOJE

Para que isso não fique só como lição de história, quero deixar três aplicações práticas.

1. Voltar à Bíblia e valorizar a Palavra. Homens morreram para que tivéssemos a Bíblia na nossa língua. Que seja lida, estudada e obedecida (Salmo 119:105; Tiago 1:22). Uma igreja que se afasta da Escritura sempre acaba desviada.

2. Descansar na graça. Quem já foi justificado pela fé tem paz com Deus (Romanos 5:1). Não precisamos viver em medo ou em dívida. Mas essa graça nos leva a viver em santidade e gratidão (Tito 2:11-12).

3. Continuar reformando. O lema da tradição reformada é Ecclesia reformata, semper reformanda: a igreja reformada deve estar sempre se reformando segundo a Palavra de Deus. A Reforma não é um evento do passado, é um compromisso permanente. Examinemos a nossa vida, a nossa igreja e as nossas tradições à luz da Escritura (Atos 17:11).


CONCLUSÃO

Irmãos, a Reforma nos ensina que Deus é fiel em preservar o seu evangelho. Ele usou um comerciante em Lyon, um professor em Oxford, um pastor em Praga e um monge atormentado em Wittenberg, e, por meio da Escritura, devolveu ao povo a certeza que nenhum sistema religioso pode dar: o justo viverá pela fé.

Lutero morreu, Calvino morreu, e Roma ainda mantém o que decidiu em Trento. Mas a Palavra do Senhor permanece para sempre (1 Pedro 1:25). E a pergunta que a Reforma faz a cada um de nós é a mesma: em quem você está confiando para ser aceito diante de Deus? Em si mesmo, nas suas obras, em uma instituição, ou somente em Cristo?

Sugestão de oração final: Senhor, nós te agradecemos pela tua Palavra preservada e pelos homens que sofreram para que a tivéssemos. Guarda-nos de confiar em nós mesmos. Ensina-nos a descansar somente em Cristo, a amar a tua Palavra e a anunciar o teu evangelho com verdade e amor. Em nome de Jesus, amém.


REFERÊNCIAS BÍBLICAS UTILIZADAS

Deuteronômio 6:6-7 · Salmo 119:105 · Provérbios 21:1 · Marcos 7:6-9,13 · João 14:6 · Atos 17:11 · Romanos 1:17; 3:21-28; 5:1; 11:6,36 · 1 Coríntios 4:7 · Gálatas 1:8-9; 2:16; 4:4 · Efésios 2:8-10; 4:15 · Colossenses 1:18 · 2 Timóteo 3:16-17 · Tito 2:11-12 · 1 Timóteo 2:5 · Hebreus 4:14-16; 9:25-28; 10:12-14 · Tiago 1:22; 2:17 · 1 Pedro 1:25 · 1 João 1:7


ANEXO: LINHA DO TEMPO RÁPIDA (para projetar ou distribuir)

Ano Acontecimento
c. 1170 Pedro Valdo e os valdenses
c. 1380 Wycliffe e a Bíblia em inglês
1415 Jan Hus queimado em Constança
c. 1450 Gutenberg e a imprensa
1516 Novo Testamento grego de Erasmo
1517 As 95 Teses de Lutero
1521 Dieta de Worms
1522 Novo Testamento de Lutero em alemão
1536 Institutas de Calvino
1545–1563 Concílio de Trento
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